Rúbia
Nunca entendi como pude dar tantas cambalhotas, como fui capaz de me agarrar tão firmemente a seus cabelos e não te deixei ir quando você me abandonou com meus choros ao meio fio; te maldisse para as minhas amigas mais próximas, e para as mais distantes que passaram a ser próximas, esconjurei seu nome, rasguei suas fotos, as nossas nas tardes do verão efêmero que quase não passamos, cobrei os presentes que havia te dado, e que mesmo assim o tenho na lembrança ainda muito forte, com seus sorrisos de acalento, suas mãos flutuantes, que mais pareciam femininas e que me agarravam de um jeito que nunca me fizeram antes; ainda te tenho dentro do meu corpo, passeando pelo meu ventre, me arrastando pela madrugada sem que eu tivesse sono; ainda não me apagou da mente seus olhos postos sobre mim gelidamente que me diziam “calma, minha querida Rúbia, a vida não se faz de alegrias, elas são somente o descanso da tristeza”; ah, Paulo, como me rasgou o útero essa declaração fora de hora; mas, claro, que boba que sou, você não imagina, não sabe por que fiquei com o olhar perdido nos seus; aliás, já que não falo para ninguém, que escrevo nessas páginas abarrotadas achadas na escrivaninha de minha avó, que deus a tenha, não vejo motivo de me conter: eu odiava suas falas nas horas que não eram a hora, suas cócegas que eu só suportava por tanto te amar, eu não me importava qual a medida de seu amor, apenas queria tê-lo comigo, só comigo, e de pensar seus lábios percorrendo o corpo de outra, náuseas instantâneas transitavam por meu intestino, eu havia me feito para você, e não agüentava compartilhar seus carinhos com Bianca, Larissa, Vanessa, Cecília… você se desculpava, dizia que não fazia por mal, que não existia outro corpo para seus olhos, outra boca para seus lábios, outras pernas para as suas, outro cheiro de cabelo para sentir, outro colo para deitar, outro riso para rir… mas me abandonou, me largou com ardência nos olhos e amargura no coração, com esperança na mente e vazio nas mãos, uma conversa fiada e uma solidão no travesseiro. Perdi meu consolo, meu sono, meu choro e minha vontade de crescer, sofri no canto do quarto e na frente do espelho, mas nada me foi tão mutilador: eu te vi, você com o mesmo sorriso, mais alegre que antes, eu fingi sorrir, seu telefone toca “Oi Natália, estou chegando. Tchau Rúbia, como está? Eu te ligo…” e sua voz se desfez no burburinho da distância…
Xande.
Gostei! Homem é tudo safado mesmo, Rubia, vire lesbica e fique livre desse vicio!!
A gente escreve de um jeito que, na maioria das vezes, nos prece estranho mesmo. Alguém deve explicar isso, caso não tenham o feito e eu é que não tô sabendo. Alexandre, que bom: um lugar com suas palavras e dessa vez em companhia. Alguma coisa me pareceu estranha nesse, vou pensar e reler. Mas, destaco a inconveniência que são as separações de quem aceita se perder a fim de permitir que um outro assuma significados enormes e muitas vezes à toa. As pequenas coisas magoam e são, de fato, mutiladoras e, como já diz a canção, parece que sempre vamos tarde.
Parabéns aos pelo espaço! Passo pra comentar o algo que me estranha (que não é o Formalismo Russo)… mais tarde e sem pressa.
Suzane